Estudo com participação da UFSCar, USP e Universidade de Connecticut foi publicado no Journal of Applied Ecology
É cada vez mais um consenso no meio acadêmico que os problemas ambientais globais irão diminuir à medida que forem restauradas florestas em espaços ociosos e de baixa aptidão agrícola. Porém, poucas soluções foram apresentadas para enfrentar esse desafio, considerando inclusive o alto custo da restauração florestal. Nesse contexto, uma equipe de pesquisadores do Brasil e de outros países realizou um trabalho que aponta a regeneração natural como uma medida eficiente e de baixo custo. O estudo, com a participação de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Connecticut, dos Estados Unidos, foi publicado no Journal of Applied Ecology.

O foco da pesquisa foi a bacia hidrográfica do Rio Piracicaba, cuja extensão é de mais de 12 mil km², situada entre o sudeste do Estado de São Paulo e o extremo sul de Minas Gerais. Ela fornece água potável para cerca de 10 milhões de pessoas, incluindo grande parte da cidade de São Paulo, e está na segunda região mais ameaçada do bioma Mata Atlântica, com apenas 7% da cobertura florestal remanescente. 

A restauração florestal na bacia pode auxiliar na conservação da água; no entanto, os altos custos da restauração são um dos principais desafios a serem vencidos. Os custos, além de altos, são variáveis por duas razões: as características naturais de cada local, que influenciam no sucesso do início do processo de restauração florestal; e as perdas econômicas da conversão de terras agrícolas em áreas de reservas florestais, que dependem do retorno econômico das culturas plantadas e dos preços da terra (os chamados custos de oportunidade). 

“Esses custos podem ser significativamente reduzidos quando for possível se utilizar da própria regeneração natural, processo natural de restabelecimento da floresta após perturbações em larga escala”, garante Paulo Guilherme Molin, docente do Campus Lagoa do Sino da UFSCar e um dos autores do trabalho, junto com Robin Chazdon, da Universidade de Connecticut; e Silvio Frosini de Barros Ferraz e Pedro H. S. Brancalion, ambos da USP. 

Como a regeneração natural requer condições que não estão universalmente presentes, a equipe de pesquisadores usou imagens de satélite para identificar locais onde as florestas cresceram naturalmente entre os anos de 2000 e 2010 em toda a bacia hidrográfica e usaram essas informações, juntamente com indicadores ambientais e sociais, para prever a probabilidade da ocorrência de regeneração natural nos dez anos seguintes (2010 a 2020). Eles também calcularam os custos de implementação de medidas de restauração, com base nas probabilidades previstas, bem como os custos de oportunidade da terra, que variam de acordo com o uso da terra atual e anterior, características da paisagem e contextos de mercado. 

Três estratégias alternativas foram aplicadas, durante o estudo, para restaurar a cobertura florestal nativa de 15 mil hectares, em três unidades de paisagem de 40 mil hectares, que representam um gradiente de intensidade de uso da terra e cobertura florestal (paisagem de agricultura mecanizada, dominada por plantações de cana; paisagem de pastagem; e paisagem florestal, dominada por pastagens, mas com maior cobertura florestal – 31%). Uma estratégia inicial priorizou a restauração ao longo dos riachos, semelhante ao aplicado pelo “Novo Código Florestal”. Uma segunda realizou a restauração em locais espacialmente aleatórios; e uma terceira priorizou a restauração de baixo custo, em áreas com alta probabilidade de regeneração natural.

A pesquisa indicou que, em toda a bacia, tanto para áreas de cultivo agrícola como para pastagens, a regeneração natural foi favorecida em regiões com declividade acima de 10%, com distâncias inferiores a 200 metros de corpos d´água e a 100 metros de remanescentes florestais. Na paisagem florestal, 44,5% das terras tinham alto potencial para regeneração natural, comparado a apenas 7,3% na unidade de paisagem com agricultura mecanizada. 

“A estratégia de restauração, baseada na regeneração natural e na priorização de usos do solo com menor custo de oportunidade, resultou em enormes economias nos custos de implementação e nos custos totais nas três unidades de paisagem. Quando os custos totais foram incluídos, a magnitude da economia foi maior na unidade de agricultura mecanizada, com um custo 20,9% menor (algo em torno de US$ 20,5 milhões de economia), em comparação com a priorização baseada em zonas ripárias [regiões diretamente relacionadas aos cursos d’água]”, explica Molin.

O estudo também mostrou que a priorização de áreas com alto potencial de regeneração natural aumentou a relação custo-benefício em relação ao sequestro e estoque de carbono e à conectividade da paisagem. A estratégia de redução de custos minimizou o custo total de estoque de carbono acima do solo, nas três unidades de paisagem, com média de US$ 74 por tonelada adicional de carbono estocado em florestas restauradas em paisagens de agricultura mecanizada; US$ 58 em paisagens de pastagem; e US$ 41 em unidades de paisagem florestal. Essa análise é uma das primeiras a realmente calcular o custo do estoque de carbono por meio da restauração florestal, demonstrando que esses custos são muito maiores do que o preço atual do carbono no mercado voluntário.

“Nossa abordagem tem potencial para contribuir com políticas públicas, tal como a atual implantação do ‘Novo Código Florestal’, especificamente com o Programa de Regularização Ambiental que regula onde e como os proprietários devem restaurar e reflorestar suas áreas irregulares ou degradadas”, conclui Molin.

O trabalho foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pelo programa Ciências sem Fronteiras e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O artigo completo pode ser acessado emhttps://bit.ly/2LSxL2n.