Projeto Prato Firmeza, O Guia de Gastronomia das Quebradas de SP, é exemplo na área de educação com vistas à nutrição saudável e contará com recursos da Fundação Cargill

Os estudos sobre o número de pessoas que vive em favelas ou “aglomerados subnormais” no Brasil – denominação esta consagrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) – ainda carecem de atualização.

Mas um dado, ainda que não atual, chama a atenção: segundo o mesmo IBGE, entre 1991 e 2010, os números da população concentrada nessas localidades saltou de 7 milhões em 1991 para mais de 11 milhões em 2010. É de se imaginar que, com a crise econômica e a alta taxa de desemprego – atualmente estimada em pouco mais de 12 milhões de pessoas sem trabalho no País – a concentração de moradores nas periferias das grandes cidades ganhem ainda mais corpo.

De um modo geral, as favelas ou periferias estão localizadas longe dos centros econômicos das grandes cidades brasileiras e o acesso a serviços públicos é quase inexistente. Em termos de alimentação – ou mesmo a falta dela – a desinformação é a tônica e a vulnerabilidade social e alimentar dessas populações são um triste prato cheio.

É nesse contexto que surgiu o projeto Prato Firmeza, O Guia de Gastronomia das Quebradas de SP, que foi desenvolvido pela Associação Escola de Jornalismo. A iniciativa é uma das contempladas pelo Edital 2019 da Fundação Cargill e receberá recursos financeiros e suporte técnico para alcançar ainda mais jovens num projeto educacional que vai oferecer nas regiões onde atua formação em jornalismo gastronômico para jovens.

A Fundação Cargill tem 45 anos de atuação e tem como objetivo central a promoção e na disseminação de conhecimento para uma alimentação saudável, segura, sustentável e acessível. Com essas premissas, vem apoiando organizações não governamentais e estimulando ações e jovens inovadores no apoio a projetos que promovam a transformação social e a geração de valor na cadeia da alimentação. Além disso, a Fundação Cargill ainda mantém projetos próprios, focados na capacitação de pequenos agricultores.

O começo

Prato Firmeza nasceu por conta da demanda de um aluno da Associação Escola de Jornalismo. Mateus Oliveira sonhava ser chef de cozinha, mas reconheceu, com decepção, que se quisesse conhecer os pratos dos grandes estilistas da gastronomia, teria que ir até os bairros dos Jardins e Pinheiros, onde, teoricamente, estão concentrados os melhores restaurantes da capital paulista.

“Tínhamos um espaço no Catraca Livre onde tratávamos da agenda das periferias, mas nada se dizia de opções de refeições boas e baratas. Então nós combinamos com o Mateus de ele procurar lugares, com uma verba semanal de R$ 20. E ele começou a mapear esses lugares”, revela Amanda Rahra, co-fundadora da ONG Énois, que dá suporte à Escola de Jornalismo e ao Prato Firmeza.

O projeto ganhou ainda mais fôlego em 2014 quando um morador de São Miguel Paulista, zona sul da capital, sinalizou que trabalho similar poderia ser desenvolvido naquela região. “A partir dali percebemos que poderia ser feito um mapeamento, um encontro do jovem com seu território. O tema da gastronomia era sedutor. São Paulo, a capital da gastronomia, estava sendo subestimada pela sua imprensa branca, masculina e rica do centro”.

O primeiro mapeamento do Prato Firmeza contou com cinco jovens do centro e das regiões leste, oeste, norte e sul da capital. Na época, o projeto foi financiado pelo governo do Estado de São Paulo.

Nova noção de pertencimento

Amanda Rahra considera que o Prato Firmeza ajuda a fomentar na cidade não apenas um novo olhar sobre a economia, como também um reconhecimento.

“Um ex-aluno da Escola de Jornalismo, o Alexandre Ribeiro, que hoje em dia está lançando um livro, lembra que quando não tinha dinheiro para levar a namorada para o centro, ficava super sem jeito. Com o projeto, a abordagem dele mudou: ‘Você quer comer o melhor acarajé da cidade? Ele está aqui em Paraisópolis’. Isso é você valorizar as pessoas, o território, o conhecimento da cultura local, gerar renda para as pessoas ali e trazer relevância para aquilo que as pessoas fazem”, resume Amanda.

Mapeando receitas

Prato Firmeza mapeou estabelecimentos comerciais de pequeno e médio porte que servem pratos variados nos extremos das zonas sul, leste, norte e oeste da capital paulista, além de municípios da região metropolitana de São Paulo e do ABC paulista.

O guia funciona como uma referência de refeições (rápidas até), mas que primam pelo esmero com nutrientes que assegurem uma nutrição equilibrada para os consumidores. O Guia das Quebradas de SP já tem três versões impressas.

Nessa nova etapa do trabalho está prevista a produção de mais um guia impresso com 40 empreendimentos gastronômicos nas periferias de São Paulo. Além disso, será produzido um outro guia, de caráter metodológico, que visa replicar o projeto para outras regiões da cidade, além de um seminário que terá como foco a alimentação saudável nas periferias.

Um dos grandes desafios da Associação Escola de Jornalismo em relação ao Prato Firmeza é a impressão do quarto guia e do seminário sobre alimentação saudável e do guia de expansão, o projeto pretende chegar ao Rio de Janeiro e ser implementado na Favela da Maré, no Morro do Alemão e em outras comunidades carentes. Também está nos planos a produção de podcasts sobre alimentação nas periferias.

Curiosidade e retorno

Uma das descobertas do Prato Firmeza, o Guia das Quebradas de SP, se refere ao Cambuci. O nome remete a um dos bairros próximos ao centro da capital paulista. Também é uma fruta em processo de desaparecimento avançado no País porque originário da Mata Atlântica – que a ação do homem está fazendo desaparecer.

A iguaria, no entanto, é cultivada no bairro de Parelheiros, extremo da zona sul paulistana por uma senhora de nome Marlene. “Ela fornece para os restaurantes mais chiques de Pinheiros e dos Jardins. Mas pense na oportunidade que o guia dá de a pessoa se deslocar até a periferia para consumir esse alimento”, reflete Amanda Rahra.

E por falar na distância entre periferia e regiões mais ricas da cidade, o Prato Firmeza é vendido nos bairros de Pinheiros e Vila Madalena. “Eu diria que o guia ganhou um status de ser cool. As pessoas querem consumir e ir a um restaurante escondido nas quebradas. Eu acho engraçado que tem pessoas que fazem check list”, afirma a co-fundadora da Énois.

O retorno dos estabelecimentos que fazem parte do guia é notável. Todos eles possuem placas que indicam que aquele espaço integra o Prato Firmeza. “As pessoas alcançadas pelo projeto entenderam que não basta você ter fornecedor, um bom produto, entre outros para fazer o negócio girar. O que a gente percebe é um reconhecimento de fazer parte de um guia e que a comunicação tem que estar estruturada para ajudar aquele espaço crescer”.

Versão eletrônica

A versão eletrônica do Prato Firmeza, O Guia de Gastronomia das Quebradas de SP pode ser encontrada no http://escoladejornalismo.org/pratofirmeza/wordpress2018/?page_id=989 e divide as opções por tipo de cozinha e seus diferenciais. Os mecanismos de busca do site indicam a localização dos restaurantes e lojas, além de indicar se os mesmos privilegiam as opções vegana ou vegetariana, por exemplo. Uma pesquisa mais apurada através do site exibe se um comércio atende a critérios de acessibilidade para portadores de necessidades especiais ou mesmo se possuem acesso à rede Wi Fi.

Para saber mais sobre o projeto, assista ao vídeo:
https://youtu.be/SCvQLKvMXOg

Fonte: Alimentação em Foco – https://alimentacaoemfoco.org.br/alimentacao-acessivel-e-saudavel-e-sonho-possivel-nas-periferias-de-sao-paulo/?utm_source=facebook&utm_medium=cpc&utm_campaign=Newsletter&utm_term=Fevereiro2019&utm_content=Prato%20Firmeza

Please follow and like us:
error